Um bom debate
Artigo do Diretor-Geral Adjunto da UNESCO, Márcio Barbosa, publicado em 'O Globo' de 25 de novembro de 2008.
Márcio Barbosa
A demanda por energia continua crescendo no mundo, e não é mais possível satisfazer às necessidades globais por meio da exploração de recursos de energia esgotável. Esse crescimento pode ser atendido com recursos alternativos ao petróleo, que deve ser reservado progressivamente para usos exclusivos. O grande desafio para a comunidade internacional é fazer essas mudanças para que haja uma transição sem demora a uma nova era de recursos múltiplos de energia.
Hoje, a comunidade mundial está consciente do papel e da importância da energia como instrumento fundamental para se alcançar o desenvolvimento sustentável e diminuir as mudanças climáticas. É uma tarefa desafiadora que deve buscar a proteção do meio ambiente, a erradicação da pobreza e a igualdade social.
A importância de fortalecer o diálogo internacional, incluindo todas as fontes alternativas e renováveis, é vista atualmente como questão urgente para assegurar um fornecimento de energia sustentável e ambientalmente responsável a longo prazo.
A Unesco é certamente o melhor foro para promover esse diálogo. Ela não é apenas uma organização internacional com reputação de neutralidade; também possui várias atribuições necessárias numa discussão especial para assunto tão importante.
Devido às suas características únicas no sistema das Nações Unidas, a abordagem da agência pode se beneficiar das contribuições de outros setores de sua pasta — educação, cultura, ciências sociais e humanas e comunicação e informação. Uma característica fundamental dessa visão é o modo inovador e sinérgico com que reúne ciências naturais e sociais em programas e atividades projetados para lidar com os aspectos multidimensionais da pobreza e dos conflitos.
Em resumo, o desenvolvimento humano deve ser o centro de nossas preocupações. Porém, o desenvolvimento humano não é viável, no fim das contas, se os objetivos do desenvolvimento sustentável, principalmente os relacionados à energia, não são atingidos. Precisamos de crescimento econômico para erradicar a pobreza e precisamos alcançar esse crescimento por meio do desenvolvimento sustentável. Ao mesmo tempo, temos de evitar que, dentro do período de vida de uma geração, uma importante opção de energia para as gerações futuras seja reduzida.
É importante avaliar cuidadosamente os reais benefícios e os potenciais impactos negativos dos diferentes biocombustíveis para desenvolver medidas de política efetivas.
O futuro dos biocombustíveis dependerá, em grande parte, de uma estratégia para o desenvolvimento sustentável que melhore a disponibilidade, a eficiência do uso da terra, a eficiência de energia, a efetividade de custo, o desempenho das emissões de gás do efeito estufa, a competição de alimentos e a proteção do ecossistema.
O papel da Unesco como fórum para cooperação e diálogo internacional sobre assuntos de energia, assim como sua contribuição no desenvolvimento de capacidade científica e competência local e no fornecimento de conselho de políticas, são essenciais para tratar os desafios globais de energia. Isso é o que a Unesco pode e quer fazer.
Márcio Barbosa é diretor-geral adjunto da Unesco.

