Crimes contra a Cultura
Artigo publicado na Folha de São Paulo no dia 29 de março de 2001
Koichiro Matsuura*
Acaba de ser perpetrado um crime contra a cultura. Ao destruir os Budas gigantes que, há 1.500 anos, miravam o vale de Bamiyan, os talebans cometeram algo irreparável. Destruíram não só parte da memória afegã como também um testemunho excepcional do encontro entre várias civilizações e um patrimônio pertencente à humanidade inteira.
Trata-se de um crime cometido fria e deliberadamente. Não há desculpas, nem sequer a de uma ação militar naquela região do país. Nos últimos dez anos, as grutas pintadas por monges ao redor dos Budas vêm sendo destroçadas e depredadas por soldados de diferentes facções, que nelas instalaram suas trincheiras, assim como suas armas, até mesmo nos pés das estátuas, rebaixadas à condição de escudos.
Na última década, os Budas constituíram-se em alvos em diversas ocasiões. Isso já era intolerável, mas a guerra poderia servir de explicação, embora não de justificativa, para essas ações. A destruição sistemática que acaba de se perpetrar de nenhum modo pode ser beneficiada por esse pretexto.
Esse crime contra a cultura foi cometido em nome da religião, ou melhor, em nome de uma interpretação religiosa controversa. Eminentes teólogos, especialistas em Islã, manifestaram-se contra essa interpretação.
Ao ordenar, em nome de sua fé, a destruição de obras-primas do patrimônio afegão, o mullah Omar julga conhecer mais acerca do Islã do que todas as gerações de muçulmanos que se sucederam nos últimos quinze séculos; mais que todos os conquistadores e dirigentes muçulmanos que evitaram a destruição de Cartago, Abu Simbel ou Taxila; e até mais que o próprio profeta Maomé, o qual, em Meca, respeitou a arquitetura da Caaba.
Na verdade, com seus atos destruidores, os talebans desprestigiam o Islã, ao invés de contribuir com o seu esplendor, e assassinam a memória do povo afegão, que encontrava em seu patrimônio a raiz de sua identidade e de seus valores. Privando o Afeganistão de suas riquezas, eles acabam por prejudicar o país que pretendem dirigir.
Nada pôde impedir o crime. Ninguém pôde fazer os talebans ponderarem: nem o clamor do amplo protesto internacional nem o nível dos emissários religiosos ou de outros enviados especiais. Muito além da perda já imensa dos Budas, trata-se de uma ação sem precedentes a que acaba de acontecer. Pela primeira vez uma autoridade central certamente não reconhecida arrogou-se o direito de destruir um bem do patrimônio de todos. Pela primeira vez a Unesco, encarregada por sua constituição de preservar o patrimônio universal, encontra-se diante de tal situação.
O passado já viu, é claro, destruições. Certas decisões macularam a história de numerosos países, movimentos iconoclastas foram devastadores no seio de uma religião, situações revolucionárias puderam causar estragos e, mais perto de nós, a cidade de Dubrovnic ou a ponte de Mostar se tornaram alvos porque eram símbolos. Mas acreditávamos ter ingressado definitivamente em uma nova era, uma era de mais estima e respeito ao patrimônio, um patrimônio com o qual cada um aprendia a ler os símbolos de uma propriedade ao mesmo tempo comum e plural.
A Unesco havia contribuído com isso consideravelmente ao atuar em três frentes: a proteção dos bens culturais no caso de conflito armado, com a Convenção de Haia; a luta contra o tráfico ilícito desses mesmos bens, com os diversos instrumentos normativos; e a promoção, desde 1972, da idéia de patrimônio universal.
Os talebans desprestigiam o Islã, ao invés de contribuir com o seu esplendor, e assassinam a memória do povo afegão.
O êxito da Lista do Patrimônio Mundial ilustra perfeitamente a amplitude dessa consciência, dessa nova disposição favorável ao patrimônio. Assiste-se, com frequência, a verdadeiras festas motivadas pela inscrição de mais um sítio na lista; hoje as pessoas sentem-se envolvidas e honradas pelo reconhecimento universal de um de seus bens naturais ou culturais.
Esse interesse popular por um patrimônio tão próximo quanto distante é um fato novo e não é alheio ao atual processo de globalização; um processo em que cada um se sente parte integrante da "aldeia planetária"; ao mesmo tempo em que necessita de raízes e de se reconhecer em monumentos e sítios impregnados de valores e sentido.
Não nos equivoquemos, não foram somente as pedras que acabaram de ser destruídas; é uma história, uma cultura, ou melhor, foram os testemunhos do encontro possível e frutífero entre duas grandes civilizações e uma lição de diálogo intercultural o que se quis apagar.
Daí qualificarmos de crime o ato insensato dos talebans, em Bamiyan ou nos museus do Afeganistão, de destruição de estátuas pré-islâmicas.
Não se deve permitir tamanha regressão cultural. Esse crime requer um novo tipo de sanção. Há poucos dias o Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia deu o exemplo ao incluir, em suas 16 acusações, a destruição de monumentos durante o ataque, em 1991, contra o porto histórico de Dubrovnic, na Croácia.
A comunidade internacional não deve se resignar, tolerando crimes contra os bens culturais. Diante do ato, isolado mas de grande perigo, dos talebans, a Unesco tomará as medidas adequadas. Em particular, medidas com o fim de lutar contra o tráfico de bens afegãos -que desgraçadamente será intensificado de agora em diante-, de salvar o resto do patrimônio pré-islâmico ou islâmico desse país, assim como de reivindicar, no âmbito do Comitê do Patrimônio Mundial, um reforço nas proteções. A comunidade internacional perdeu os Budas de Bamiyan, mas não deve perder mais nada.
* Koichiro Matsuura, 62, economista e diplomata japonês, é diretor-geral da UNESCO


