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Programa A Rota do Escravo

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A despeito de a escravidão ser um fenômeno universal, ocorrendo em diversas épocas e partes do mundo, o tráfico transatlântico de escravos, em particular, se reveste de uma tripla singularidade: sua duração - aproximadamente quatro séculos; a especificidade de suas vítimas - a criança, a mulher e o homem negros do continente africano; e sua legitimação intelectual - a depreciação cultural da África e do Homem Negro e a conseqüente construção da ideologia do racismo anti-negro e sua organização jurídica na forma dos "Códigos negros", vergonhosos textos excluídos da memória jurídica e histórica que devem ser urgentemente trazidos novamente à luz.

Com o objetivo de tornar visível essa tragédia estranhamente ausente dos livros de história e por conseguinte, da memória da humanidade, a Conferência Geral da UNESCO instituiu o projeto internacional "A Rota do Escravo". Dessa forma, pretende-se criar o marco necessário para uma reflexão científica internacional e multidisciplinar com vistas a elucidar as causas profundas, as modalidades e conseqüências do tráfico de negros.

Além da verdade histórica, o projeto "A Rota do Escravo" busca também o reconhecimento do fato de que a luta pela democracia e pelos direitos humanos é, sobretudo, uma luta pela memória, de modo a evitar o esquecimento e a repetição das tragédias do passado. Cuida ainda de dar o necessário espaço à historicidade do continente africano, posto que nenhum grande problema atual da África está totalmente desconectado da sangria brutal e da violência sofrida pelo continente com o tráfico transatlântico de escravos.

Coordenado, administrado e monitorado pelo Departamento de Diálogo Intercultural e Pluralismo para um Cultura de Paz, da UNESCO desde 1994, a Rota do Escravo reúne um Comitê Científico Internacional, composto por 40 especialistas no assunto e desenvolve, em conjunto com o Secretariado da UNESCO, diversas atividades relativas ao acesso e preservação das fontes documentais e tradições orais concernentes à memória do tráfico, a pesquisas e o desenvolvimento de um programa educacional que visa promover uma melhor compreensão e apresentação nas escolas do tráfico de escravos. Da mesma forma, promove ainda atividades artísticas e de turismo cultural, além de produzir de diversas publicações sobre o tema.

No Brasil, merecem destaque duas atividades realizadas: O "Seminário Internacional sobre Tráfico de Escravos, Cultura e Desenvolvimento", que teve lugar em Brasília, no ano de 1998, e em 2001, o Seminário sobre Religiões Afro-americanas e Diversidade Cultural".

Tráfico transatlântico de escravos e diversidade cultural
 
Paradoxalmente, o choque brutal provocado pelo tráfico entre milhões de africanos, ameríndios e europeus na América e no Caribe, apesar do contexto de violência e dor em que ocorreu, gerou um intenso diálogo intercultural e a aparição de novas e ricas formas de culturas. O escravizador, unicamente interessado na força de trabalho do escravo e portanto, na porção física de sua pessoa, não conseguiu escravizar os seus deuses, mitos e valores, sua fonte de força interior para sobreviver, resistir e se renovar no ambiente hostil em que se encontravam.

Esse processo transformou as Américas e o Caribe em um extraordinário palco para a multiculturalização, cujas implicações podem trazer diversas respostas para o entendimento do antagonismo racial - que sobreviveu ao fim da dimensão estritamente material do tráfico - e constituir um verdadeiro potencial para o diálogo intercultural no futuro.

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